Efeito Pedro e o Lobo

Por Maria Eugênia Cardoso*

 

Numa casa onde tem muita mulher é impossível não se sentir como um protagonista de uma novela mexicana 100% do tempo. Me lembro de uma dessas novelas chamada Chispita (nossa, tô ficando velha) de uma menininha que perdia a memória depois também de perder os pais num acidente de carro. Era só tristeza  e só de assistir à abertura já ia uma caixa inteira de Kleenex.

Na minha casa, graças a Deus, o drama não acontece  por motivos reais. Mas mesmo assim acontece. E muito. Tudo é razão para um chilique. Tudo é razão para um bico, lágrimas descontroladas, gritos, ataques de pânico e daí em diante. Morro de pena do meu marido que qualquer dia desses vai chegar em casa com um peixe ou um passarinho para tentar aumentar um pouco os níveis de testosterona lá dentro (se é que bicho tem esses hormônios também). Qualquer coisa para ajudar um pouco o pobre coitado que às vezes só precisa de um minuto de silêncio para reestabelecer a paz interior.

Um dos componentes do nosso repertório de ensinamentos para as meninas é mostrar a elas que é preciso controlar um pouco esses ataques. Vejam bem – não sou adepta àquela maneira super rígida de criar as crianças. Depois de morar 13 anos nos EUA e aprender muito com eles, não concordava com alguns comportamentos dos pais, principalmente os que restringiam as demonstrações de tristeza ou alegria das crianças. Ou quando eles mandavam as crianças pequeninhas “Grow up!” – ou seja, deixa de fazer manha que você já é grande! Essa necessidade de conter as emoções nunca fez parte da pauta na minha casa, ainda mais por que 50% do nosso sangue é italiano e conter sentimentos não é algo que sabemos fazer muito bem. Vejo essa deficiência em tantos filmes americanos…Diálogos entre pais e filhos, maridos e esposas, amigos e amigas que terminam com um dos dois saindo da sala sem finalizar a conversa, sem dizer: EU TE AMO! Ou mesmo EU TE ODEIO! Enfim – acredito mesmo que temos que aprender a verbalizar os sentimentos e comunicá-los sempre que possível.

Porém, não sou adepta do exagero e venho tentando sistematicamente passar isso para as meninas. Outro dia na praia, uma das minhas gêmas pisou numa bolacha do mar. Se alguém sabe do que eu estou falando, não existe nada mais inofensivo nesse mundo do que uma bolacha do mar. Pra começar, só de olhar ela já quebra.  E se fica fora d´água, fede pra dedéu. Bom, pisou daqui, pisou dali e eventualmente pisou numa concha quebrada ou mesmo num siri que deu uma beliscada no seu pé. Foi como se um tubarão tivesse arrancado um pedaço da perna dela e eu, lá de longe, sentada tomando sol, vejo meu marido correndo da água com ela no colo como se trabalhasse naquela série Baywatch com os salva vidas e as mulheres peitudas. Quando fui olhar o “ferimento”, nem consegui enxergar nada! E logicamente dei um beijinho-sara-tudo mas falei: Amor – eu achei que você estivesse se afogando! Precisa desse escândalo? E ela disse: “Siiiiim! Está doendo muito!”

E a minha caçula então? Essa daí faz um micro-arranhão e leva o machucado imaginário tão a sério que manca por dias a fio (quando tem ou não adultos olhando), pede remédios, poções, pomadas, orações e tudo o que possa ajudar o grande machucado sarar. Se arrasta de bumbum, pede muleta, chora, se descabela e abre mão de brincadeiras, passeios em nome do machucado. E na maioria das vezes eu não consigo encontrar a tal ferida a olho nu! Se estamos saindo para um passeio e a pequenininha cai e se rala, acabou o programa! Ou melhor, acabou o dela, por que seguimos em frente sob choro, soluços e muita reclamação. Mas não deixamos isso interferir na rotina da família inteira.

Bom, com esse circo todo no qual muitas vezes minha casa se transforma, como estamos fazendo para melhorar a situação e fazer com que as meninas entendam que não é necessário esse show para ganharem nossa atenção?

Eu sempre invoco a história do Pedro e o Lobo. Apesar delas dizerem: “Já sei mamãe, já sei”, eu conto rapidinho e enfatizo a passagem em que o Pedro estava realmente em perigo mas ninguém acreditou de tanto que ele tocou o apito quando não era nada sério. Eu explico para elas que a mamãe e o papai sempre vão estar prontos para ajudá-las, dar carinho, ajudar com os machucados (reais e metafóricos). Mas que elas também precisam aprender a dosar o nível do chilique.

Entre muitos abraços e muitos beijos, mas também usando uma voz firme, eu repito para elas que  muitas vezes vale mais a pena levantar rapidinho, tirar a poeira e seguir em frente do que ficar lá sofrendo onde não há sofrimento. E só dar atenção para as coisas que realmente merecem atenção. Daí imediatamente a Juju, minha caçula, fala: “Mamãe, lembra daquele meu machucado enorme? Então… Já sarou!”

E apesar desse ritual se repetir com bastante frequência – por que quem tem criança sabe que o processo de educação é repetitivo, insistente e incansável – eu sinto que elas sempre aprendem mais uma coisinha, e que na próxima ocasião provavelmente terão novas ferramentas para usar, tanto no caso de um tombinho ou de um tombão.

*Maria Eugenia Cardoso tem 38 anos, é Gerente de Marketing, corredora, é casada e tem 3 filhas

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